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Estampas do céu

14 de janeiro de 2026
estampas-do-ceu
Estampas do céu

No Dia Internacional da Pipa, celebrado hoje (14), a tradição de soltar pipas evidencia memórias, afetos e desafios entre cultura, brincadeira e responsabilidade coletiva

 

‘O Caçador de Pipas’ (2007), dirigido por Marc Forster, acompanha a amizade entre dois rapazes que crescem no Afeganistão dos anos 1970. A narrativa atravessa temas como amizade, culpa e redenção, tendo o céu afegão como cenário simbólico e as pipas como metáfora de memória, escolhas e perdas. (imagem difusão)

 

Pipas com cerol confiscadas em Votuporanga durante operação em 2020. (foto arquivo/Diário de Votuporanga)

 

Em regiões urbanas, soltar pipa perto da rede elétrica pode provocar danos aos cabos de energia, causar interrupções no fornecimento e expor quem empina ao risco de descargas elétricas.  (foto difusão)

 

@caroline_leidiane

 

O céu como território de imaginação, o vento como apoiador imprevisível e as mãos, por intermédio de uma linha, guiando com cuidado aquilo que se deseja ver ganhar altura.

Celebrado hoje (14), o Dia Internacional da Pipa nasce da tradição de grandes festivais realizados na Ásia, inclusive na Índia, onde a data coincide com o Makar Sankranti, celebração milenar que marca a transição do sol para o hemisfério norte e simboliza renovação, prosperidade e novos ciclos.

Neste contexto, soltar pipa representa alegria coletiva, encontro e esperança — sentidos que atravessaram fronteiras e transformaram o gesto em símbolo universal.

 

Uma história que atravessa séculos e culturas

Muito antes de se tornar brincadeira, a pipa teve funções práticas e rituais. Surgida existe mais de dois mil anos na China, foi usada em comunicações militares, estudos científicos e cerimônias espirituais.

Ao circular através do mundo, ganhou nomes, formatos e significados próprios. No Brasil, tornou-se papagaio, arraia, pandorga, raia. Feita de papel de seda, varetas de bambu e linhas simples, carrega um saber artesanal transmitido de forma oral e prática, de geração em geração.

 

Aprendizado, convivência e tempo compartilhado

Existe, neste brincar, uma pedagogia silenciosa. A pipa ensina a esperar o vento certo, a refazer o que não deu certo, a dividir o céu e a aceitar perdas. É também um ritual de sociabilidade.

Em tempos de telas frequentes e experiências mediadas por algoritmos, o voo da pipa preserva a espera, o fazer manual — individual ou coletivo — e o encontro, seja com a imensidão do céu, seja com a delicadeza do tempo partilhado entre quem divide o mesmo vento.

 

Tradição, beleza e responsabilidade

Celebrar essa tradição, no entanto, exige atenção redobrada. Em regiões urbanas, soltar pipa perto da rede elétrica pode provocar danos aos cabos de energia, causar interrupções no fornecimento e expor quem empina ao risco de descargas elétricas. Isso ocorre quando a linha se enrosca nos fios, pode rompê-los ou conduzir eletricidade até a pessoa que fica soltando a pipa, transformando a brincadeira em uma situação de perigo real.

O risco se agrava com o uso de linhas cortantes, como cerol e linha chilena, que representam ameaça direta para pedestres, ciclistas e motociclistas, podendo causar ferimentos graves e acidentes fatais no trânsito.

Situações como essas, recorrentes em diferentes cidades brasileiras, motivaram campanhas educativas, ações de fiscalização e debates públicos voltados à preservação de vidas, sem comprometer a continuidade da cultura do brincar.

 

Votuporanga: entre iniciativas locais e o desejo de manter o céu colorido

Em Votuporanga, a relação entre tradição e cuidado passou a contar com respaldo legal no mês de junho de 2024, com a sanção da Lei nº 7.162, que incluiu o Festival de Pipas, Papagaios e Similares no Calendário Oficial de Eventos do Município.

Prevista para ocorrer todos os anos no mês de agosto, dentro das comemorações do aniversário da cidade, a iniciativa estabelece como diretriz central a segurança: durante o acontecimento, fica expressamente proibido o uso de cerol ou de qualquer material cortante em linhas, fios, pipas ou rabiolas.

De autoria da vereadora Jezebel Silva, a legislação reconhece o valor cultural da brincadeira e comprova a necessidade de preservar o céu como espaço de convivência, lazer e responsabilidade coletiva. Já em 2025, o município avançou ainda mais nesta postura ao sancionar uma lei que proíbe a venda, a posse e o uso de cerol, linha chilena ou outros materiais cortantes em pipas e similares, alinhando-se à legislação estadual que já vedava esse tipo de prática.

A norma estima penalidades que vão desde a apreensão dos materiais até multas que podem ultrapassar R$ 1.500,00 para quem comercializa ou reincide na infração, com responsabilidade estendida aos responsáveis legais quando se trata de crianças ou adolescentes.

O município também preserva na memória experiências que ajudaram a consolidar esse costume. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o Assary Clube de Campo, que, por anos, promoveu campeonatos de pipa com categorias premiadas, como a de Maior Pipa. As atividades reuniam famílias, crianças e adultos em torno da prática esportiva, transformando o clube em ponto de encontro e referência cultural, com destaque no calendário descontraído da cidade.

Entre linhas esticadas e olhos voltados para o alto, a pipa se mantém como um gesto simples que atravessa o tempo, conectando infância, memória e vida coletiva. Celebrar o Dia Internacional da Pipa é reconhecer a força cultural de um brincar que ensina paciência, convivência e respeito ao espaço comum, sem ignorar os cuidados que ele exige no cenário urbano contemporâneo.

Mas fica o alerta: a pipa deve permanecer como símbolo de encontro, imaginação e liberdade — jamais de risco ou imprudência.

 

 

Com informações da Diario de Votuporanga

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