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Quando a guerra devasta, a juventude insiste na paz 

7 de fevereiro de 2026
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Quando a guerra devasta, a juventude insiste na paz 

Estudante de raízes votuporanguenses, Heloísa Xavier Locatelli participa da 5ª Cúpula Global da Paz, em Bangkok, e retorna com um olhar humanitário sobre conflitos, diplomacia e responsabilidade global.


@caroline_leidiane

Guerras não iniciam unicamente nos campos de batalha — elas invadem lares, interrompem vidas, dilaceram famílias e sonhos, arrasando cidades onde nada escapa à mira dos ataques, nem mesmo escolas e hospitais.

Em um mundo agendado através da banalização da violência armada, são as vidas comuns que pagam o preço mais alto das decisões geopolíticas. É neste cenário de devastação contínua que uma nova geração de estudantes e jovens chefes tenta reposicionar o futuro: menos centrado no poder, mais atento à dignidade humana.

A aposta fica na formação crítica, no diálogo internacional e na construção da paz como prática — não como retórica.

Conflitos recentes são basilares para materializar essas estatísticas. O enfrentamento entre Israel e Irã, que durou em torno de 12 dias no mês de junho de 2025, resultou em dados humanos brutais. O momento, agendado por intensas trocas de ataques aéreos, mísseis e drones, deixou centenas de mortos e milhares de feridos nos dois países, com números divergentes entre governos e organizações independentes.

No Irã, as estimativas apontam entre 935 e 1.054 mortes e milhares de feridos, incluindo militares e cientistas nucleares; em Israel, 28 pessoas morreram e mais de 3,2 mil foram hospitalizadas, revelando a assimetria do confronto e o impacto direto da escalada militar sobre o povo civil.

Mais ao norte do mapa dos conflitos globais, a Ucrânia concentra uma guerra prestes a completar 4 anos, iniciada em 24 de fevereiro de 2022 com a invasão russa — a maior agressão militar na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Conforme dados do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), desde a decisão do presidente Vladimir Putin de avançar sobre o território ucraniano, em torno de 1,2 milhão de militares russos morreram, ficaram feridos ou estão desaparecidos, sendo aproximadamente 325 mil mortos. O ano passado foi o mais letal para as tropas, com 415 mil baixas — em torno de 35 mil por mês.

Mas esses números não são abstrações frias — são pessoas. Cada estatística carrega uma história trágica de perdas e de um futuro que não chegou a existir. Por trás das contagens oficiais estão nomes que não aparecem nos relatórios, casas que deixaram de ser lar, crianças que cresceram cedo demais e adultos obrigados a sobreviver ao inenarrável “começar do zero”.

Diminuir guerras a cifras é um modo de anestesiar a dor; olhar para além delas é reconhecer que o impacto real dos conflitos se mede em ausências, traumas e silêncios que permanecem muito depois do cessar-fogo.

É neste contexto que a trajetória de Heloísa Xavier Locatelli, estudante de Relações Internacionais com raízes em Votuporanga, ganha relevo. Escolhida entre em torno de 450 jovens de todo o mundo, ela participou da 5ª Cúpula Global da Paz, realizada de 21 a 23 de janeiro deste ano, no Centro de Conferências das Nações Unidas, em Bangkok.

O acontecimento foi planejado através da Humanitarian Affairs Asia (Relações Humanitárias da Ásia), plataforma internacional dedicada à formação de jovens chefes para atuação em temas como paz, sustentabilidade, inclusão e ajuda humanitária.

A 5ª Cúpula Global da Paz juntou, no espaço de três dias, representantes de 52 países, incluindo CEOs, embaixadores, ativistas e sobreviventes de conflitos munidos com armas – Foto: Arquivo Pessoal

Entre a universidade e a ONU

Atualmente, Heloísa é estudante de Relações Internacionais na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) e fica ingressando no segundo semestre da graduação. Ainda no começo do percurso acadêmico, ela relata que, por ora, seus planos estão centrados em aprofundar os estudos e consolidar a formação.

A participação da estudante na 5ª Cúpula Global da Paz se deu com o auxílio de um processo seletivo. Segundo ela, o convite chegou por e-mail, orientado através da própria faculdade, seguido do link de inscrição e de um formulário com perguntas aprofundadas que exigiam respostas pessoais sobre o significado da paz, as maneiras de promovê-la e as expectativas em relação ao papel de embaixadora da paz nas relações humanitárias.

“Dediquei bastante cuidado às respostas, buscando refletir de forma honesta sobre meus valores e meu compromisso com o tema”, relata. 

Depois de a etapa de análise, alguns dias depois, veio a confirmação: a carta de aceitação que oficializou sua participação no acontecimento internacional.

Quando a teoria encontra a vida real

Durante dos três dias de programação, a cúpula juntou representantes de 52 países, entre CEOs, embaixadores, ativistas e sobreviventes de conflitos munidos com armas. Para Heloísa, o impacto maior veio do contato direto com histórias que escapam à abstração acadêmica.

Ao falar sobre os momentos que mais a marcaram no espaço do acontecimento, ela conta que algumas experiências produziram um impacto difícil de traduzir racionalmente, deslocando sua percepção acadêmica para um plano profundamente humano. Entre elas, uma narrativa específica a levou a confrontar limites entre estudo, vivência e realidade concreta dos conflitos munidos com armas.

“Todas as palestras tiveram impactos importantes em mim, mas duas, em especial, me atravessaram de uma forma muito profunda e difícil de explicar. A primeira foi a de Alfred Orono Orono, ex-criança-soldado. Nascido em Uganda, ele perdeu a mãe durante a guerra, sem sequer saber como ela foi morta. Ainda na infância, foi forçado a lutar pela própria sobrevivência e viveu situações que fogem completamente daquilo que somos capazes de imaginar. Ele conseguiu fugir da prisão e, após uma longa jornada completamente sozinho, encontrou apoio por meio da ajuda humanitária. Anos depois, formou-se em Direito e atuou como promotor no Tribunal Penal Internacional de Ruanda. Enquanto ouvia sua história, me dei conta de que, apesar de estudar temas relacionados a conflitos armados e desigualdade, eu nunca havia realmente refletido sobre o que significa estar dentro de uma guerra. Não apenas analisá-la, mas sobreviver a ela. […] Isso me fez repensar profundamente meus próprios privilégios e a distância entre teoria e realidade”, destaca.

A estudante também aponta o contato com integrantes do movimento binacional Combatants for Peace, que reúne israelenses e palestinos, como um dos pontos mais decisivos de sua passagem através da cúpula.

“Sulaiman Khatib, ex-militante palestino condenado a 15 anos de prisão aos 14 anos, e Chen Alon, ex-oficial das Forças de Defesa de Israel, condenado por se recusar a continuar lutando na Faixa de Gaza. Ouvir as histórias dos dois já foi, por si só, muito impactante, mas as falas de Chen ficaram especialmente comigo. Ele contou que, no início, sonhava em ser soldado, até se confrontar com os horrores que passou a ver — e, em alguns casos, a causar. Relatou ter participado da explosão da casa de uma família e disse que essa experiência foi uma virada definitiva em sua vida, ao perceber que não se tratava de inimigos ou criminosos, mas de pessoas comuns, civis, com histórias e vidas tão legítimas quanto a dele”, cita emocionada.

Relações internacionais como relações humanas

Inserida em um ambiente de alcance global, como o cenário da Planejamento das Nações Unidas (ONU), Heloísa relata que a convivência com trajetórias tão diversas produziu uma ruptura importante na forma como compreendia o próprio campo de estudo, deslocando-o de uma lógica abstrata para uma experiência ancorada em realidades concretas.

“Tive contato com pessoas de um mundo muito além do meu. […] Estar em um espaço que reuniu representantes de 52 países, cada um com vivências, histórias e marcas tão distintas, me fez perceber o quanto a minha visão de mundo era limitada pela minha própria realidade. […] As relações internacionais deixaram de ser apenas negociações entre Estados ou conceitos teóricos e passaram a se revelar, para mim, como relações profundamente humanas, carregadas de dor, memória, resistência e esperança”, reflete.

Privilégio, responsabilidade e origem

Ao refletir sobre o significado de estar naquele espaço, Heloísa associa a experiência a um chamado ético que ultrapassa a vivência individual e se projeta como dever coletivo. Conforme ela, ocupar um lugar tão restrito exigiu escuta atenta, consciência histórica e respeito pelas trajetórias que a antecederam.

“Ter sido selecionada entre cerca de 450 jovens do mundo todo […] foi algo que encarei com muito senso de privilégio e responsabilidade. […] Também senti, com muito carinho, que eu representava Votuporanga naquele contexto internacional. […] Representar Votuporanga não foi apenas mencionar o nome da cidade, mas levar comigo a formação humana que ela me proporcionou. Participei com orgulho, mas principalmente com gratidão”, confessa.

Quando menciona as bases que sustentam sua trajetória, a estudante cita a mãe, Ane Stella Salgado Xavier, o pai, Flávio Vendramini Locatelli, e os avós maternos, Vera Maria Salgado Xavier e José Ruy Fontes Xavier, como referências centrais desse percurso.

“Chegar a um evento de dimensão global como esse não foi um esforço individual. Foi resultado direto de uma base familiar que sempre valorizou educação, pensamento crítico e propósito”, pontua.

Em um mundo que contabiliza mortos, feridos e deslocados com a mesma frieza com que atualiza mapas de conflito, a experiência vivida por Heloísa devolve densidade humana ao que muitas vezes é cuidado como abstração.

Ao atravessar relatos de sobrevivência, memórias de guerra e histórias marcadas através da perda, a estudante retorna com a consciência de que compreender os impactos das guerras exige mais do que informação — exige implicação. 

Não existe conforto capaz diante da violência sistemática, nem neutralidade frente ao sofrimento alheio. O que emerge desse circuito não é uma resposta pronta. 

“Sair dessas palestras foi sair com mais perguntas do que respostas, mas com uma certeza muito clara: é essencial desenvolvermos pensamento crítico para não normalizar ou apoiar guerras. A realidade vivida por quem está no centro dos conflitos é infinitamente mais cruel do que qualquer discurso político ou estratégico consegue mostrar”, finaliza Heloísa.

Com informações da Diario de Votuporanga

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